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Publicado por - 14/08/2011

PSICOLOGIA CLÍNICA

Aparentemente a área considerada mais nobre na Psicologia é a clinica, pelo menos o

era épocas atrás. Agora, a Psicologia comunitária ocupa lugar de destaque. Se considerarmos

que os problemas ouvidos na clínica são oriundos do indivíduo e não da sociedade,

que leva o indivíduo a desenvolver seus problemas, neuroses, dificuldades, estaremos

eliminando uma determinação fundamental, pois se lidamos só com o psicológico,

como os psicanalistas gostam de dizer, lidamos com os sintomas.

Dentre os autores que gosto de estudar está Theodor Adorno, que diz que no momento que

se dá alta na psicoterapia o indivíduo adoece.

O indivíduo sai da alta consciente que o problema é dele, quando na verdade ele é gerado

por outra esfera. Walter Benjamim, no texto sobre alguns temas em Baudelaire, afirma que o indivíduo só pode ser circunscrito, como a Psicanálise propõe, a partir de um inconsciente consciente.

O século 19 é propício para o objeto da Psicanálise. O século 20 não mais. O nosso

objeto, do século 19 para o século 21, regrediu. Na medida em que a sociedade se torna

mais organizada, administrada, o indivíduo não progride.

Charles Baudelaire, poeta maldito das Flores do Mal, nos meados do século 19, para poder divulgar sua obra, sabia que o público existente não era mais sensível

à poesia lírica, porque o sujeito sensível ao lirismo tem de se entregar ao objeto, tem

de estar atento a algo que não seja a si mesmo. Naquela época o indivíduo era melancólico

e, portanto, a poesia deveria tratar de temas que gerassem sensibilidade no leitor.

Baudelaire tenta romper a insensibilidade dos leitores por meio de choques.

Em Além do princípio do prazer, Benjamim utiliza o conceito de escudo de Freud para dizer

que aquilo que nos fere não vem só de dentro do organismo, mas também de fora. A estimulação

é muito intensa e, se não tivermos alguma proteção, não aguentaremos. Uma

parte da consciência se torna inorgânica e rejeitamos boa parte da estimulação que vem

de fora. A ansiedade estaria presente para impedir que os estímulos que geram choque

possam entrar. Quando a ansiedade não está presente o choque penetra, gerando o

trauma.

A base da vivência é o choque, diversas experiências,diversos estímulos que não penetram

o indivíduo, não deixam marca. Nas grandes cidades a experiência coletiva foi se perdendo

e passa a restar a que é uniforme. A vivência, experiência empobrecida, toma o

lugar da experiência. A partir de meados do século 19, portanto, a experiência torna-se

difícil de ser vivida, dando lugar à vivência.

O indivíduo empobrecido é próprio do século 19. Baudelaire tinha como objetivo quebrar

e superar a vivência, mas perdeu a luta. Seu sonho era dar vida ao que não tem vida, à

massa, a multidão.No século 19, século do indivíduo dividido,surge a Psicanálise de Freud, que estuda a consciência e o inconsciente. Freud lida com o homem do século 19, parcialmente racional,a consciência, mas com a parte do egoum tanto quanto inconsciente. Na passagem

do século 19 para o século 20 ou, se preferirem,do capitalismo liberal para os monopólios

e oligopólios, nosso objeto, o indivíduo,também se perde. Se antes era possível

o indivíduo se constituir, em um termo que Horkheimer e Adorno vêm chamar de pequena

empresa psicológica, constituída por ego e superego, se do conflito surge a possibilidade,

mínima que seja, de liberdade com a sociedade dos monopólios, tal conflito não

mais existe.

A consciência moral não mais se forma, os indivíduos voltam-se tendencialmente para

fora, são heterodeterminados. Essa dura decisão que o indivíduo deveria tomar agora é

influenciada por outras instâncias inclusive corporativas, como sindicatos e meios de comunicação.

O século 20 retrata o fim da narrativa, a ausência do diálogo.

José Leon Crochík é psicólogo pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Psicologia

Social e doutor em Psicologia Escolar do Desenvolvimento Humano pela USP, e

livre-docente em Psicologia no Instituto de Psicologia da USP, onde também exerce o

cargo de professor titular na graduação e na pós-graduação do departamento de Psicologia

da Aprendizagem do Desenvolvimento e da Personalidade. Tem experiência na área

de Psicologia com ênfase na relação entre personalidade e sociedade, atuando principalmente

com os seguintes temas: Teoria crítica da sociedade, Psicologia social, Theodor

Adorno, Preconceito, Ideologia da sociedade industrial e Educação inclusiva.

Fonte: VII CONGRESSO REGIONAL DA PSICOLOGIA –

http://www.crp04.org.br/CRP2/File/JornalCRP-96-NET.pdf

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