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Publicado por - 12/09/2012

A experiência artística na clínica

 

A experiência artística na clínica

O consulente encontra-se à minha frente: seus movimentos – pés, mãos, rosto, tronco – formam uma dança, e mesmo as interrupções que vão ocorrendo fazem parte dessa dança. Talvez não uma dança em sentido tradicional, mas ainda assim, uma dança. De repente, o consulente suspira e olha pela janela – descortina-se à minha frente um quadro, belíssimo e profundo. Ouço aquele momento de silêncio, atravessado por uma leve brisa que balança a cortina e pelo canto ocasional de pássaros, e desse fundo irrompe a voz do consulente, reatando a frase melódica do suspiro – pura música. Há cheiros, que perpassam minhas narinas e meus lábios, condensando-se sobre minha língua e transformando-se em gosto; saboreio e engulo seu perfume. Estou ali, com todos os meus sentidos, fazendo parte da dança, do quadro, da música, da cena.
Sentidos que se entrelaçam, reversíveis: tateio com os olhos, ouço com o corpo, vejo com os ouvidos. Não se trata de metáfora nem de linguagem poética, mas de uma experiência muito própria (apropriadora, apropriante). Algo se cria em nós – mas como falar em criação se isso que em mim se apropria surge quase como uma passividade? É difícil pensar-se em criação sem cair em armadilhas semânticas, lógicas discursivas nas quais quem cria, cria alguma coisa – e a partir de onde se infere a existência de um sujeito que faz alguma coisa (sujeito, verbo, predicado, objeto, causalidade, passado, futuro, linha temporal etc.). Na experiência acima descrita diluem-se os sujeitos, diluem-se os espaços e as temporalidades. Mais que uma vivência estética, é uma experiência ética.
Há muito a se discutir em relação à dimensão artística na prática clínica (e não me refiro aqui às diversas formas de arte-terapia). Essa dimensão costuma emperrar ou perder-se quando inserido o conceito (congelante) de “Arte”. O artista não lida com arte, lida com o vazio, e neste campo não há segurança alguma; a cada processo/obra, um novo vazio, uma nova angústia. O artista não aprende a dar forma aos vazios; no máximo, aprende a conviver e a deleitar-se com eles.
Alberto Andrés Heller*

*Artista e Gestalt-Terapeuta – Instituto Müller-Granzotto. Autor dos livros “Fenomenologia da expressão musical” e “John Cage e a poética do silêncio”.

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