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Publicado por - 5/08/2013

Tratamento da Dependência Química – Clínica Psicanalítica

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 “Cada um possa colocar algo de si no que lê, escuta e escreve”

Jaques Lacan

A ideia  é conversar sobre as teorias, métodos e técnicas para  atendimentos individual e em grupo do dependente químico . A psicóloga  Eloísa Lima tem pressupostos, concepção de tratamento e o papel do terapeuta nas seguintes Abordagens: Psicanalítica e Cognitiva Comportamental. Sobre as abordagens citadas, a autora expõe de forma didática e colabora para o entendimento da clinica psicanalítica que às vezes é complexa e de difícil entendimento, ficando às vezes compreensiva somente para os entendidos em psicanálise, as contribuições com o glossário foram de extrema valia.

Em relação à abordagem psicanalítica das toxicomanias, a autora expõe os seguintes  objetivos: identificar os pressupostos teóricos e conceitos fundamentais para a abordagem psicanalítica das toxicomanias, fornecer subsídios teóricos e práticos para o diagnóstico estrutural diferencial na clínica das toxicomanias, pois a partir do fenômeno da toxicomania, não se pode chegar a estrutura,como é possível no caso do sintoma, caracterizar os princípios éticos e a função do terapeuta na direção do tratamento analítico das toxicomanias.

Os pressupostos Teóricos da Clínica Psicanalítica das Toxicomanias possuem  alguns alinhamentos teóricos para  marcar o seu campo de trabalho.

Em primeiro lugar: há uma distinção entre sujeitos toxicômanos e usuários.

No primeiro grupo, estariam aqueles em que o objeto-droga assume um lugar de imperativo, ao qual o sujeito recorre de forma repetitiva e intensa. Nessa relação, sujeito e objeto estabelecem um laço fusional dificilmente transponível, configurando um quadro clínico que requer tratamento. No segundo grupo, encontramos um sujeito que mantém uma relação circunstancial com o objeto-droga, demandando outras formas de intervenção que não necessariamente um tratamento.

Em segundo lugar: para a abordagem psicanalítica, a abstinência não é a meta principal do tratamento. Quase todas as abordagens da toxicomania estão centradas na questão do consumo da droga, e evitar esse consumo equivaleria à obtenção do resultado desejado. Nessa perspectiva, a cura é pensada a partir da desintoxicação, o que resulta no corolário: “A droga faz o toxicômano”. A abordagem psicanalítica propõe uma inversão ao considerar que o toxicômano é quem faz a droga”. Essa posição assenta-se na concepção de que a droga ocupa para cada sujeito uma função muito específica, uma função eminentemente psíquica e que, portanto, para que um tratamento prossiga, é necessário proceder a uma desmontagem desta relação entre o sujeito e seu objeto-droga. Por esse ponto de vista, a abstinência não é a meta do tratamento. Ela virá por consequência na medida em que cada sujeito operar a desmontagem da sua relação repetitiva e alienante com o objeto droga. Essa mudança de ótica implica a passagem do objeto ao sujeito. A meta principal do tratamento é colocar em relevo as relações do sujeito com o seu inconsciente.

Em terceiro lugar: A toxicomania não é uma estrutura clínica. Essa afirmação diz respeito à abordagem descritiva e ao mecanismo de funcionamento da toxicomania. Para a psicanálise, a toxicomania não se constitui numa estrutura clínica específica, mas pode estar presente em cada uma delas, seja na neurose, na psicose ou na perversão.

Em quarto lugar: A toxicomania não é um sintoma. Essa afirmação diz respeito à concepção psicanalítica do sintoma. Para a psicanálise, o sintoma tem uma estrutura de metáfora, de substituição, articulado a uma lógica regida pelo inconsciente. Assim entendido, o sintoma sempre remete o sujeito a uma falha, a um ponto de incompletude. O ato de se drogar não apresenta a estrutura do sintoma na medida em que não remete o sujeito à sua divisão, mas, antes, coloca-se como uma solução. Uma tentativa de “medicar” a incompletude.

Em quinto lugar: A construção da demanda é preliminar ao próprio tratamento. No atendimento clínico a pacientes toxicômanos e alcoolistas, é preciso que se construa junto a esses sujeitos uma demanda de tratamento. Sabemos que esse é um dos grandes impasses dessa clínica. Na maioria das vezes, o toxicômano busca tratamento quando é encaminhado pelas autoridades judiciais, familiares, amigos etc. Raramente, busca o tratamento por uma iniciativa sua, por um querer saber sobre sua problemática. Chegam ao tratamento “tomados” pela droga – fazem com ela um vínculo fusional  que dificulta a formulação de uma demanda de tratamento.

Alguns aspectos são importantes para  conduzir o tratamento, um deles:

é   preciso que tenha  uma demanda de tratamento. Sendo assim não basta que o sujeito se apresente ao tratamento com uma queixa, é preciso que essa  queixa se transforme numa demanda endereçada ao terapeuta e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão, de enigma para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo. Que estabeleça a relação de transferência, e localizar qual função a droga ocupa na vida de cada sujeito.  Seguida as entrevistas iniciais, para perceber o diagnostico e a relação de confiança entre terapeuta e cliente para estabelecer o processo e perceber encaminhamentos.

Em psicanálise, a estrutura clínica diz respeito ao modo como cada sujeito se constituiu com relação ao significante da Lei da Castração, também nomeado como “Nome do Pai” ou “Função Paterna” quando da travessia do Complexo de Édipo. Resultam dessa travessia três formas de estruturação psíquica:  Neurose, Psicose e Perversão.

1ª Neurose: encontraremos nesta estrutura um sujeito marcado pelo desejo, pela falta e, por conseguinte, pela mediação simbólica.

2ª Perversão: o sujeito se recusa a aceitar a castração, os limites, a diferença entre os sexos e cria uma estratégia de defesa instalada pela denegação da realidade por meio do fetiche.

A recusa em aceitar os limites impostos pelas leis da cultura são características marcantes  desta  estrutura.  A angústia  é  um  elemento  que  invariavelmente  não  se  apresenta.  Pelo  contrário,  é  frequente  uma  satisfação  do  sujeito  perverso  em  causar  angústia  no  outro,  dividindo-o para aí encontrar sua satisfação.

3ª Psicose: nesta estrutura, encontraremos um sujeito submetido ou subordinado a um Outro absoluto.  Outro  que  não  é  barrado  porque  a  instância  paterna  foi  forcluída. O sujeito psicótico se coloca sempre como objeto desse Outro.

Uma  vez  que  o  sujeito  psicótico  não  é  marcado pela castração, pela falta, a lei do desejo não funciona, impossibilitando, portanto, uma mediação simbólica. Resulta dessa condição uma posição subjetiva de assujeitamento, de  invasão  de  gozo,  marcada  pela  presença  dos  fenômenos  alucinatórios  e  pela  certeza  que  o sujeito psicótico confere a esses fenômenos.

Acabamos de  identificar  elementos  básicos  de  definição  diagnóstica, que  a  toxicomania não se confunde com uma estrutura clínica, embora possa estar presente em cada  uma  delas, que  o  diagnóstico  serve  para  visar  a  causa,  ou  seja, que  em  psicanálise  o  diagnóstico  só  tem  sentido  se  servir  de  orientação  para  a  condução  do  tratamento.  Por  isso, na  direção  da  cura  tanto  de  neuróticos  quanto  de  psicóticos,  é  muito  importante  localizar  tanto  o  lugar  da  droga quanto  sua  função  na  estrutura.  

A função do terapeuta na direção do tratamento, a partir dos nos ensinamentos da clínica psicanalítica, escutar e acolher o paciente mediante sua história com a droga, da experiência da droga e sua  questão à questão do sujeito, que é anterior à droga e para a qual a droga se apresenta como uma solução, isto é um significante. O terapeuta deverá apoiar o paciente no seu desejo de mudança, estimular responsabilização do paciente por seu destino e pelas escolhas que faz na vida, localizar no percurso de cada tratamento tanto o lugar da droga quanto sua função para cada  paciente, o terapeuta deve tomar cuidado para não se tornar um mero parceiro de gozo desse sujeito quando ele lhe relata as maravilhas da droga,é no além desse gozo que a intervenção do terapeuta possibilitará o aparecimento do sintoma inerente ao sujeito do inconsciente em sua dimensão de enigma, para assim se dar um esvaziamento do significante droga com o qual se nomeia.Tornar possível o encontro do indivíduo com aspectos anteriormente inacessíveis ao seu consciente. Ultrapassar impasses existenciais, indo além das repetições inconscientes de comportamentos que impedem o desenvolvimento de sua maturidade e autonomia.

Nessa clínica o terapeuta não deve se concentrar na droga, pois a droga não tem problemas, o sujeito sim que possui questões a ser resolvidas. 

No texto 02 falaremos da T.C.C.

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