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Publicado por - 18/11/2013

Dificuldades de Aprendizagem à Luz das Relações Familiares

 

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Para Polity  a dificuldade de Aprendizagem, não é tarefa simples, mas sentiu-se motivada em escrever sobre o assunto pela força das relações e pela sua experiência.

A ligação da família com as dificuldades de aprendizagem e o atendimento terapêutico/educacional possibilita a flexibilidade da dinâmica familiar, e uma abertura para as possibilidades de vida.

Para autora entrelaçar os campos da Psicopedagogia e Terapia Familiar amplia e um complementa o outro no contexto das dificuldades de aprendizagem.

A Psicopedagogia, vem pesquisando, estuda e analisa as questões relacionadas ao processo de aprendizagem e ao tratamento de seus problemas.

A Terapia Familiar, procura ressignificar as questões do grupo, dentro de uma Abordagem Sistêmica, trazendo os processos relacionais, é como a família lida com a aprendizagem. E perceber como o sujeito com a dificuldade está inserido nesse contexto familiar.

“Reconhecer quando uma criança ou jovem apresenta uma Dificuldade de Aprendizagem já é um passo para não rótula de lenta ou preguiçosa.”

Reflexões:
Valores familiares que são transmitidos de geração em geração.

Há famílias de engenheiros, que se espera do filho mais velho que também o seja. Há famílias de advogados, de médicos ou de negociantes, onde o destino da criança já está selado nem bem ela nasceu. Pode-se observar aqui o papel dos mitos familiares que tentam a construção de uma realidade irreal desejada para a continuação da história familiar. 

 

Quando se atende uma família cuja queixa é a Dificuldade de Aprendizagem de um de seus membros, em geral um dos filhos, é necessário construir um espaço de escuta respeitosa, onde se possa observar o processo de um plano mais amplo.

Como é a Estrutura Familiar, isto é, qual a composição da família, organização fraterna ( a ordem, o sexo, as idades), quais as pessoas significativas para o grupo, que convivem, ou não na mesma casa; Adaptação ao Ciclo Vital, isto é, quais os eventos relacionados à evolução natural do grupo, como a família reage a eles, como cada membro enfrenta essas mudanças, eventos externos e internos ao grupo que tem alguma significação; Alianças e Coalizões existentes no grupo, quem é leal a quem, quem se une com quem, contra quem,quais as alianças e triangulações existentes no sistema familiar; Padrões de Repetição que determinam a formação e/ou rompimento de vínculos afetivos, influenciando sobremaneira no funcionamento e na hierarquia familiar;Equilíbrio e Desequilíbrio considerando-se seu funcionamento regular, ou seja, quais as expectativas para cada um de seus membros, papéis, estilo de funcionamento, padrões de comunicação e temas recorrentes, que pertencem ao imaginário do grupo; como manejam os segredos, o que é visto e como é permitido o crescimento e a diferenciação;
Significado que a família confere às crenças, aos valores, aos mitos, que geram mandatos relativos ao saber. 
Ao procurarmos entender a família como um todo, estaremos valorizando o aspecto de Globalidade do sistema, que difere do somatório das partes (teoria Geral dos Sistemas) e o aspecto de Reciprocidade, onde cada membro influencia e é influenciado pelo comportamento dos outros.

Desta forma, poderemos nos aproximar daquelas questões familiares que interferem de maneira contundente no desenvolvimento da criança ou do jovem.
A colocação do indivíduo no espaço familiar, dentro de uma perspectiva geracional (vertical) e dentro de um contexto atual (horizontal), permitem a formação de um quadro mais amplo para o entendimento das dificuldades de aprendizagem.
Quando um indivíduo nasce, ele não vem ao mundo como uma tela em branco mas sim, inserido numa história familiar que compreende várias gerações e recebe uma série de missões e projeções dos pais avós e família extensiva (Bowen, 1978).
O conceito de missão está ligado aos conceitos de legado e lealdade desenvolvido por Boszormenyi & Nagy (1983), que evidenciam o quanto forte e poderosa pode ser o legado destinado à criança, impedindo-a muitas vezes de se relacionar com o conhecimento e com o saber .

Aprender requer que possamos nos separar, pelo menos em parte, dos nossos pais e construir um saber próprio, que ao mesmo tempo que nos dá pertencimento, pois o compartilhamos com outros membros do grupo. Isso demanda de nós um certo grau de autonomia e individualidade, que por sua vez nos permitem elaborar nossa própria identidade.
A patologia, ao expressar-se em um dos membros do sistema, que se oferece como canal escoador, representa dialeticamente a tentativa de manutenção daquele equilíbrio organizacional, ou segundo Hoffman, (1981), a patologia surge quando se instala uma situação de duplo vínculo numa etapa de necessária transformação familiar. Assim o sintoma expressaria ao mesmo tempo a necessidade de mudar e a proibição em faze-lo.

Quando a família nuclear não se separara o suficiente das respectivas famílias de origem, não estabelecem o que Minuchin chama de fronteiras geracionais, dificultando a diferenciação de seus membros. (Minuchin, opus cit.)
A criança com Dificuldade de Aprendizagem, que é o objeto de nosso estudo, está na maior parte das vezes situada numa família onde seu discurso não encontra um sentido. A ela, muitas vezes cabe a função de carregar o peso da história do grupo. Esta função pode ser demasiado difícil e ela não conseguir dar conta. É quando surgem os sintomas: notas baixas, falta de atenção, dificuldade ou lentidão de raciocínio. “Ele fica nas nuvens”;” Nunca traz as lições, seus cadernos estão incompletos”; Não faz nada durante as aulas, parece que eu falo com as paredes” ; comentam os professores.
Para que uma criança aprenda é necessário que ela tenha o desejo de aprender. E que sobretudo o desejo dos pais a autorizem. Como diz Maud Mannoni, numa belíssima metáfora, “as crianças andam não só porque tem pernas mas porque seus pais assim o permitem.”

Ao pesquisar e construir junto com a família sua história em relação ao saber, contribuímos no processo facilitador para que cada membro reconte seu percurso, descrevendo os fatos à sua maneira, e sobretudo a significação destes para a vida do sujeito. Ao elaborar narrativas sobre seu movimento no Ciclo Vital, a família pode resgatar um pouco da sua história, onde o sintoma passou a ser descrito como tendo um sentido neste sistema. 
Embora ainda não tenha mencionado, quero ressaltar a importância do profissional que acompanha a criança e sua família (professor, psicopedagogo, terapeuta) como co-responsável por essa realidade que observa. Estando implicado no sistema e colaborando para a construção da realidade que descreve.

Ao longo de seu Ciclo Vital, o ser humano traz dentro de si, muitas famílias:

 a da sua infância, a da sua adolescência, a da sua fase adulta, com filhos e netos, e em todas elas a herança dos padrões de relação familiar é seu legado mais forte. Ser bem sucedido, do ponto de vista intelectual (poder aprender e fazer uso do conhecimento, como uma apropriação legítima), está intimamente ligado à forma como o funcionamento destas famílias internas e de suas relações atuais, constroem seu contexto de aprendizagem.
A criança vem inscrita numa trama de expectativas familiares, e muitos dos pais que se vêem às voltas com a frustração de ter um filho diferente, tendem a estabelecer vínculos disfuncionais que não ajudam-na a se desenvolver.

Algumas vezes, na tentativa de super protegê-la, encobrem sua raiva e frustração, outras vezes, colocam-na num plano de menos valia, determinando para ela, através de mitos, mandatos, lealdades, uma incompetência que está muito longe de corresponder à realidade e com isso, a mantém eternamente infantilizada, sem autorização para desenvolver o potencial que apresenta. Existe ainda aqueles que colocam expectativas inatingíveis, sem levar em conta o potencial da criança.
Percebo que existe um processo de luto subjacente, quando do nascimento e/ou desenvolvimento de uma criança que poderia ser nomeada como disfuncional, seja ela física, emocional ou intelectual; ou ainda a combinação de todos esses aspectos.

Processo esse, que nem sempre é bem elaborado pela família, agravando o quadro já existente.
Sabe-se de pais, zelosos e cuidadores, que fazem uma verdadeira peregrinação por consultórios de especialistas, na esperança de conseguir algum tipo de ajuda para o filho, estando eles mesmos engajados e dispostos a colaborar. Entretanto, na minha experiência, percebo com freqüência, famílias que não consideram a relação vincular como decisiva para a evolução do processo, tentando colocar sempre no “outro” a causa do problema e não se permitindo enxergar a possibilidade de progresso da Família, como Sistema.

Como diz Sara Pain (1982), “o absolutismo parental transforma o transitório em definitivo, pois raramente a expectativa de cura está colocada na modificação do vínculo”.
O que observei ao longo de meu percurso profissional é que, muitas vezes, não é suficiente ter capacidade intelectual para aprender. É necessário também, que se acompanhe de um contexto relacional favorável, que permita desenvolver as competência e tolerar as limitações.
Pensando sobre o que eu nomeio por Dificuldade de Aprendizagem, e considerando-a sob a óptica das relações familiares, constato que muitas vezes, a compreensão do contexto mais amplo não torna a criança mais inteligente mas, possibilita que se formem novas construções, que redefinem a carga de responsabilidade, distribuindo aquilo que anteriormente denominávamos de sintoma, por todos os envolvidos: família, escola, comunidade terapêutica, meio social, formando uma verdadeira rede relacional.

E desta forma, permite-se a construção de narrativas mais poderosas – criadas em torno das competências e da resilência – tanto para a criança como para sua família.
BIBLIOGRAFIA

BOSZORMENYI & SPARKS, Ivan e Geraldine, Lealtades Invisibles, Buenos Aires, Amorrotur Editores, 1983 
BOWBY, John, trilogia: Apego, Perda e Separação, São Paulo, Editora Martins Fontes, 1993

CARDIÉ , Laura , Os atrasados não existem, Porto Alegre, Ed. Artes Médicas,1997
EVAN IMBER-BLACK, e cols., Os Segredos na Família e na Terapia Familiar, Porto Alegre, Artes Médicas, 1994

FERNANDEZ, Alícia, A Inteligência Aprisionada, Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1994
PAIN, Sara, A função da Inteligência, Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1989

POLITY, Elizabeth, Ensinando a Ensinar,1997, 2a edição, São Paulo, Ed. Vetor, 2003
_____, Psicopedagogia: um enfoque sistêmico, (org.)1998, 2a edição, São Paulo, Ed. Vetor, 2004
______, Dificuldade de Aprendizagem e Família: construindo novas narrativas, São Paulo, Editora Vetor, 2001

POLITY,Elizabeth .Ensinando a Ensinar – São Paulo, Ed. Lemos, 1997. 2a Edição. Ed. Vetor, 2003

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