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Publicado por - 2/12/2013

É possível de se ter uma nova geração que cresça habituada a ler e que através do hábito de leitura seja capaz de interpretar, recontar e escrever ?

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LETRAMENTO: A VERDADEIRA AQUISIÇÃO DE CONHECIMENTO

O artigo, ora apresentado, visa discursar sobre o verdadeiro aprendizado através do letramento. Salientando a diferença entre a alfabetização e o letramento, buscou-se levantar questões a respeito do método utilizado no momento de letrar e estimular a prática do letramento em sala de aula. Utilizando a metodologia do estudo bibliográfico, pesquisou-se na literatura disponível acerca do funcionamento do letramento e como ele contribui para a formação de cidadãos ativos e responsáveis. Foi possível compreender que ainda há muita confusão sobre o que é o letramento e como utilizá-lo na prática docente.

  

 Palavras-chave: Letramento; Aprendizagem; Crianças.

 

Ângela Maria Lacerda

 Pedagoga, Pós Graduação em Supervisão e Orientação e Inspeção Escolar, alfabetizadora na Escola Municipal “Luis Teotônio de Castro”; email: angelamlora@gmail.com

INTRODUÇÃO

  Letrar é mais que alfabetizar, é ensinar a ler e escrever dentro de um contexto onde a escrita e a leitura tenham sentido e façam parte da vida do aluno.

A alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por um indivíduo, ou grupo. Enquanto o letramento “focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade” (TFOUNI, 1995), e ainda, é o estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita.

O processo de letramento é o aprendizado do uso da tecnologia da língua escrita. Isto é, a criança pode utilizar recursos da língua escrita em momentos de fala, mesmo antes de ser alfabetizada. Esse aprendizado se dá a partir da convivência dos indivíduos (crianças/adultos, crianças/crianças), com materiais escritos disponíveis – livros, revistas, cartazes, rótulos de embalagens, entre outros -, e com as práticas de leitura e de escrita da sociedade em que se inscrevem. Esse processo acontece pela mediação de uma pessoa mais experiente através dos bens materiais e simbólicos criados em sociedade.

       Portanto, letramento decorre das práticas sociais que leituras e escritas exigem nos diferentes contextos que envolvem a compreensão e expressão lógica e verbal. É a função social da escrita. Enquanto que a alfabetização se refere ao desenvolvimento de habilidades da leitura e escrita.     

O letramento, designa práticas de leitura e escrita. A entrada da pessoa no mundo da escrita se dá pela aprendizagem de toda a complexa tecnologia envolvida no aprendizado do ato de ler e escrever. Além disso, o aluno precisa saber fazer uso e envolver-se nas atividades de leitura e escrita. Ou seja, para entrar nesse universo do letramento, ele precisa apropriar-se do hábito de buscar um jornal para ler, de freqüentar revistarias, livrarias, e com esse convívio efetivo com a leitura, apropriar-se do sistema de escrita.

Uma pessoa pode ser alfabetizada e não ser letrada e vice-versa. “No Brasil as pessoas não lêem. São indivíduos que sabem ler e escrever, mas não praticam essa habilidade e alguns não sabem sequer preencher um requerimento.” (SOARES, 2003).

Por isso, entende-se a necessidade viva de que os professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental comecem a utilizar o programa de letramento na educação dos alunos, para que os mesmos cresçam familiarizados com a leitura e se tornem adultos críticos e atuantes.

 

 A IMPORTÂNCIA DO LETRAMENTO

 

A criança precisa ser alfabetizada convivendo com material escrito de qualidade. Através da prática da leitura e escrita, a criança pode ser letrada ao ser alfabetizada.  Para isso, é preciso usar jornal, revista, livro. É necessária a prática social da leitura que pode ser feita, por exemplo, com o jornal, que é um portador real de texto, que circula informações, ou com a revista ou, até mesmo, com o livro infantil.

Ler é levar em consideração as percepções da realidade onde se vive, observando as constantes transformações das práticas sociais e as formas de conceber essas práticas que também se modificam. É importante ainda dizer que o ato de ler deve ser tomado como uma possibilidade, e não como verdade absoluta. 

Um ponto importante para letrar é saber que há distinção entre alfabetização e letramento, entre aprender o código e ter a habilidade de usá-lo. Ao mesmo tempo em que é fundamental entender que eles são indissociáveis e têm as suas especificidades, sem hierarquia ou cronologia: pode-se letrar antes de alfabetizar ou o contrário. Essa compreensão é o grande problema das salas de aula e explica o fracasso do sistema de alfabetização na progressão continuada, através da progressão continuada as crianças chegam ao segundo ano sem saberem ler nem escrever.

O letramento se propõe a ser uma ampliação do sentido da alfabetização, para tanto quer designar àqueles que não só sabem ler e escrever, mas que fazem uso competente e freqüente dessas atribuições. Ao focar-se o ensino infantil na busca de crianças letradas, será possível, de fato, deixar para traz o analfabetismo – e o alfabeto funcional – e construir uma sociedade capaz de compreender o que acontece em seu meio, com sujeitos prontos a serem ativos e capazes de tomar decisões.

O letramento abrange o processo de desenvolvimento e o uso dos sistemas da escrita nas sociedades, ou seja, o desenvolvimento histórico da escrita refletindo outras mudanças sociais e tecnológicas, como a alfabetização universal, a democratização do ensino, o acesso a fontes aparentemente ilimitadas de papel, o surgimento da internet. (KLEIMAN, 2005).

Soares (1998, p.45-46) aponta que

à medida que o analfabetismo vai sendo superado, que um número cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que, concomitantemente,  a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica), um novo fenômeno se evidencia: não basta aprender a ler e a escrever. As pessoas se alfabetizam, aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente incorporam a prática de leitura e da escrita, não necessariamente adquirem competência para usar a leitura e a escrita, para envolver-se com as práticas sociais de escrita…

        

Para Bakhtin (1934-35, p.142), o ensino das disciplinas verbais conhece duas modalidades básicas escolares de transmissão que assimila o discurso de outrem (do texto, das regras, dos exemplos): “de cór” e “com suas próprias palavras”.

O objetivo da assimilação da palavra de outrem adquire um sentido ainda mais profundo e mais importante no processo de formação ideológica do homem, no sentido exato do termo. Aqui, a palavra de outrem se apresenta não mais na qualidade de informações, indicações, regras, modelos etc., – ela procura definir as próprias bases de nossa atitude ideológica em relação ao mundo e de nosso comportamento, ela surge aqui como a palavra autoritária e como a palavra internamente persuasiva. (BAKHTIN, 1934-35, p.142)

 É preciso superar algumas concepções sobre o aprendizado inicial da leitura. A principal delas é de que ler é simplesmente decodificar, converter letras em sons, sendo a compreensão conseqüência natural dessa ação. Por conta dessa concepção equivocada a escola vem produzindo grande quantidade de leitores capazes de codificar qualquer texto, mas com enormes dificuldades para compreender o que tentam ler. (JOLIBERT 1994, p. 59)

 Mas, como se poderia caracterizar um sujeito letrado? Há diferentes formas de ser letrado? Que agências, pessoas, instituições, objetos, histórias, definiriam condições de letramento? Vem sendo observado que crianças cujas famílias são letradas e que participam de atos de leitura e escrita desde muito cedo, vendo familiares escrevendo e lendo, ouvindo histórias, chegam à escola conhecendo muitos dos usos e funções sociais da língua escrita. Participam do que Heath (1982, p. 50) denomina eventos de letramento: “eventos em que a linguagem escrita é essencial à natureza das interações e aos processos e estratégias interpretativas de seus participantes”. Em contrapartida, as crianças oriundas de famílias pouco alfabetizadas, ou não-alfabetizadas, isto é, com pouca oportunidade de participação em eventos de letramento, ao chegarem à escola, em sua grande maioria, entendem que texto escrito é aquele que a escola lhes apresenta.

Portanto, entende-se a importância do letramento passar a fazer parte das reuniões de discussões de plano de aula e se tornar um mecanismo de ajuda para o fim da aculturação das crianças. O papel da escola, dos professores e dos supervisores é de grande valia, pois são eles que determinam o que a criança deverá aprender e o que terá prioridade. Quando se tem noção dos benefícios do letramento se observa a mudança dos agentes facilitadores da educação perante os alunos, dando mais oportunidades a eles de desenvolverem a leitura e a escrita.

 

 

O LETRAMENTO NA SOCIEDADE

 O aprendizado se dá a partir da convivência dos indivíduos (crianças, adultos), com materiais escritos disponíveis – livros, revistas, cartazes, rótulos de embalagens e outros. Práticas de leitura e de escrita da sociedade em que se inscrevem, resultando no fruto do grau de familiaridade e convívio do indivíduo com os textos escritos em seu meio. Esse processo acontece pela mediação de uma pessoa mais experiente através dos bens materiais e simbólicos criados em sociedade. Estudiosos afirmam que são muitos os fatores que interferem na aprendizagem da língua escrita, porém estudos recentes incluem entre estes fatores o nível de letramento.

Paulo Freire afirma que na verdade, o domínio sobre os signos lingüísticos escritos, mesmo pela criança que se alfabetiza, pressupõe uma experiência social que precede a da ‘leitura’ do mundo, que aqui chamamos de letramento. Contumaz o verdadeiro interesse do estudo do letramento, uma dúvida surge como uma semente que acaba de romper e dá os primeiros sinais de vida. Existe um diferencial entre o letramento e a alfabetização? Estudiosos em educação afirmam ser a alfabetização o processo de descoberta do código escrito pela criança letrada é mediado pelas significações que os diversos tipos de discursos têm para ela, ampliando seu campo de leitura através da alfabetização. c  Afirmam alguns mestres em educação em nosso Estado e no País, que o brasileiro não gosta de ler, seria oportuno o enquadramento do letramento no currículo escolar.

Reforçando os princípios antes propalados por Vygotsky e Piaget, a aprendizagem se processa em uma relação interativa entre o sujeito e a cultura em que vive. Isso quer dizer que, ao lado dos processos cognitivos de elaboração absolutamente pessoal (ninguém aprende pelo outro), há um contexto que, não só fornece informações específicas ao aprendiz, como também motiva, dá sentido e “concretude” ao aprendido, e ainda condiciona suas possibilidades efetivas de aplicação e uso nas situações vividas. Entre o homem e o saberes próprios de sua cultura, há que se valorizar os inúmeros agentes mediadores da aprendizagem (não só o professor, nem só a escola, embora estes sejam agentes privilegiados pela sistemática pedagogicamente planejada, objetivos e intencionalidade assumida).

Com a mesma preocupação em diferenciar as práticas escolares de ensino da língua escrita e a dimensão social das várias manifestações escritas em cada comunidade, Kleiman, apoiada nos estudos de Scribner e Cole, define o letramento como

… um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos. As práticas específicas da escola, que forneciam o parâmetro de  prática social segundo a qual o letramento era definido, e segundo a qual os sujeitos eram classificados ao longo da dicotomia alfabetizado ou não-alfabetizado, passam a ser, em função dessa definição, apenas um tipo de prática – de fato, dominante – que desenvolve alguns tipos de habilidades mas não outros, e que determina uma forma de utilizar o conhecimento sobre a escrita. (1995, p. 19)

Mais do que expor a oposição entre os conceitos de “alfabetização” e “letramento”, Soares valoriza o impacto qualitativo que este conjunto de práticas sociais representa para o sujeito, extrapolando a dimensão técnica e instrumental do puro domínio do sistema de escrita:

Alfabetização é o processo pelo qual se adquire o domínio de um código e das habilidades de utilizá-lo para ler e escrever, ou seja: o domínio da tecnologia – do conjunto de técnicas – para exercer a arte e ciência da escrita. Ao exercício efetivo e competente da tecnologia da escrita denomina-se Letramento que implica habilidades várias, tais como: capacidade de ler ou escrever para atingir diferentes objetivos (In Ribeiro, 2003, p. 91).

Ao permitir que o sujeito interprete, divirta-se, seduza, sistematize, confronte, induza, documente, informe, oriente-se, reivindique, e garanta a sua memória, o efetivo uso da escrita garante-lhe uma condição diferenciada na sua relação com o mundo, um estado não necessariamente conquistado por aquele que apenas domina o código (Soares, 1998). Por isso, aprender a ler e a escrever implica não apenas o conhecimento das letras e do modo de decodificá-las (ou de associá-las), mas a possibilidade de usar esse conhecimento em benefício de formas de expressão e comunicação, possíveis, reconhecidas, necessárias e legítimas em um determinado contexto cultural. Em função disso,

Talvez a diretriz pedagógica mais importante no trabalho (…dos professores), tanto na pré-escola quanto no ensino médio, seja a utilização da escrita verdadeira nas diversas atividades pedagógicas, isto é, a utilização da escrita, em sala, correspondendo às formas pelas quais ela é utilizada verdadeiramente nas práticas sociais. Nesta perspectiva, assume-se que o ponto de partida e de chegada do processo de alfabetização escolar é o texto: trecho falado ou escrito, caracterizado pela unidade de sentido que se estabelece numa determinada situação discursiva. (Leite, p. 25)

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 Atualmente, o ensino passa por um momento complicado, pois a criança ou o adulto, em sua maioria, é alfabetizado, mas não é letrado. Ela lê o que está escrito, mas não consegue compreender, interpretar o que leu e isso faz deste indivíduo, alguém com muitas limitações, pois se ele não interpreta ou compreende corretamente, ele terá problemas em todas as disciplinas que fazem parte do seu currículo escolar.De acordo com Freire (1989, p. 58-9), “(…) o ato de estudar, enquanto ato curioso do sujeito diante do mundo é expressão da forma de estar sendo dos seres humanos, como seres sociais, históricos, seres fazedores, transformadores, que não apenas sabem mas sabem que sabem.”

Há uma necessidade de que se inverta esse quadro e que se possa formar crianças capazes de fazerem leitura do mundo, compreenderem um texto e estarem aptos a analisarem todas as situações de seu cotidiano.

A leitura deve ser introduzida, buscando a resposta do aluno com a obra de ficção, sendo que este intercâmbio estabelecido entre o texto e o leitor possibilita ampliar o conhecimento sem a finalidade de cobrança, e a leitura assim, considerada um processo, uma descoberta do mundo.

Através das aulas, com a inserção nos planos de aula, há a possibilidade de se introduzir nas escolas, mesmo que aos poucos, a leitura de livros, jornais e revistas como atividade contínua e interessante para os alunos. Com o desenvolvimento desse projeto será possível, se ele for bem sucedido, de se ter uma nova geração que cresça habituada a ler e que através do hábito de leitura seja capaz de interpretar, recontar e escrever.

 

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. M. (1934-35/1975) O discurso no romance. In: Questões de Literatura e de Estética – A teoria do romance, p. 71-210. SP: Hucitec/EdUNESP, 1988.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados, 1989

JOLIBERT, J. H. Formando crianças leitoras. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. 219 p.

KLEIMAN, A. B. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola. Campinas: Mercado das Letras. 1995

KLEIMAN, A. B. (org.) Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas, Mercado das Letras, 1995.

___________ Programa de educação de jovens e adultos In Educação e Pesquisa – Revista da Faculdade de Educação da USP. São Paulo, v. 27, n.2, p.267 – 281.

LEITE, S. A. S. (org.) Alfabetização e letramento – contribuições para as práticas pedagógicas. Campinas, Komedi/Arte Escrita, 2001.

RIBEIRO, V. M. (org.) Letramento no Brasil. São Paulo: Global, 2003.

SOARES, Magda Becker. O que é letramento. Diário do Grande ABC. 2003. Disponível em: http://www.verzeri.org.br/artigos/003.pdf . Acesso em 24 abril 2011.

 


 

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