Pages Menu
Categories Menu

Publicado por - 8/12/2013 - Psicologia

O acolhimento de pacientes no tratamento do câncer de mama.

download

 Com o objetivo acolher os pacientes oncológicos, sendo uma presença, uma escuta, ajudando-os a conviver melhor com a doença diante de seus sentimentos de insegurança quanto ao momento presente e ao futuro.

Este trabalho relata sentimentos das pessoas, o medo do abandono familiar, a insegurança do tratamento, da morte e a dificuldade de relacionamentos. Assim, a proposta da Fundação através da Oficina de Artesanato é oferecer  uma possibilidade de lazer, do lúdico, da arte e  por vezes do espaço  terapêutico.  

Traz também observações da paciente  N. com câncer de mama, assim, na oficina e no atendimento individual o câncer é a discussão deste trabalho. Permitindo então uma análise, da maneira como cada um lida com a  doença.

Ela possui seu estigma, portanto em nossa sociedade, está muitas vezes ligada com a morte,entretanto, quando diagnosticado em fase inicial, este pode ser curado. No entanto, a questão é como essa família, como a sociedade e o paciente lidam com a “doença”? O senso comum não fala o nome por medo, por atrair a morte.

Enfim, é de grande importância que o paciente oncológico viva de forma saudável, para que seu tratamento seja eficaz. E para aqueles que já passaram pelo tratamento, a solidariedade, o desejo de ajudar é a motivação para estar  toda quinta-feira na Oficina de Artesanato realizando sua tarefa e acolhimento  a outros.

  

2. REVISÃO DE LITERATURA E ESTUDO DE CASO.

 

 

O Câncer representa um conjunto de patologias cuja característica básica é o desenvolvimento de alterações em processo de divisão celular, promovendo um crescimento anormal e geralmente mais rápido de células. Conforme o INCA, Instituto Nacional do Câncer deve ser analisado como um problema de saúde pública que atinge indivíduos de todas as idades e em todos os continentes, constituindo-se na segunda principal causa geral de morte por doença em todo o mundo.

Portanto, a definição da área de psicologia da saúde proposta pela American Psychological Association (APA), como um campo de contribuição científica e profissional, específica da psicologia enquanto disciplina que visa a promoção e a manutenção da saúde, a prevenção e o tratamento de doenças, podemos demarcar um campo de interface entre a oncologia (área da Medicina que estuda o câncer) e a psicologia, denominada psico-oncologia, como um dos elementos integrantes da área da psicologia da saúde.

Sendo assim, é possível descrever a psico-oncologia como um campo interdisciplinar da saúde que estuda a influência de fatores psicológicos sobre o desenvolvimento, o tratamento e a reabilitação de pacientes com câncer. Entre os principais objetivos da psico-oncologia está a identificação de variáveis psicossociais e contextos ambientais em que a intervenção psicológica possa auxiliar o processo de enfrentamento da doença, incluindo quaisquer situações potencialmente estressantes a que pacientes e familiares são submetidos.

Observa-se que a psico-oncologia vem se constituindo, em uma ferramenta importante para promover as condições de qualidade de vida do paciente com câncer, facilitando o processo de enfrentamento de eventos estressantes durante o processo de tratamento da doença, entre os quais estão os períodos prolongados de tratamento, segundo a farmacológica agressiva e seus efeitos colaterais, as alterações de comportamento do paciente (incluindo desmotivação e depressão) e os riscos de recidiva.

Faz-se necessário acolhida as pessoas com câncer, em especial as de baixa renda,  tendo em vista suas dificuldades, preconceito, medos, necessidade de escuta, encaminhamentos necessários são de extrema importância. Assim surgem as entidades, com pessoas que já passaram pelo tratamento, viveram o drama da doença e deste modo querem ser para os outros um conforto.

O Estágio  propôs  uma acolhida, atendimento, observações, escuta e interação com a proposta da Fundação que tem o objetivo de ajudar os pacientes em tratamento através de suas ações, uma delas é a Oficina de Artesanato que realiza dois eventos anuais para arrecadar fundos para entidade, uma mostra dos trabalhos confeccionados, como foi dito anteriormente.

Desse modo, no primeiro dia do estágio observou-se a novidade do lugar, a forma de trabalho, as pessoas, o grupo. A observação através dos trabalhos artesanais participando de forma efetiva, buscando estabelecer vínculos com os membros. Assim, a coordenadora permitiu  um espaço para aplicar dinâmicas, numa de nossas conversas falou da importância desta atividade. O tempo é curto se envolvem tanto, parecem não ter espaço para o terapêutico, para o grupo.

No entanto, foi aplicada uma dinâmica de grupo com o objetivo de perceber a relação grupal que ali se estabelece, tendo em vista a fala de algumas pacientes  que não sabiam o nome das participantes e existe uma entrada e saída de pessoas de forma aleatória.

Na fala da coordenadora ela relata ser ali um lugar de trabalho: “ não se sabe quem tem a doença, quem são  as coordenadoras, todas são “iguais.”  Desse modo se reúnem para executar um trabalho, uma ocupação, fica forte esta dimensão inicialmente.

No desenvolvimento da dinâmica, quando foi solicitado pela facilitadora para formar um círculo,  esta explica  a importância  do trabalho em  grupo,  o nome   que identifica cada um de forma singular, por isso no  primeiro momento ao falar o nome  de cada um inicia-se um processo de identificação. A apresentação transcorreu de forma tranquila, surgindo algumas variáveis como:  timidez,  esconder-se  atrás de uma outra pessoa, dificuldade de lançar a bola para alguém, o posicionamento de cada uma.  

No segundo momento, os dois grupos foram formados para que juntas fizessem uma pintura  usando o material, o guache e pincel, com o objetivo de deixar  no papel um pouco da história do grupo, isto é, como este grupo se encontra hoje?  Enquanto faziam o desenho haviam os seguintes comentários :  o grupo dois  é melhor pois são das artistas por isso estava mais bonito, o  material é pouco, pincel, tintas.

Mas neste momento a interação acontecia, o incentivo acontecia, enfim, não aconteceu uma organização inicial para fazer o desenho, houve uma ordem e elas cumpriram. Parece ser o que acontece no dia-a-dia da Oficina, o fazer acontece de forma mecânica.

É importante ressaltar a angústia da estagiária com relação ao horário, elas tendo  uma meta a cumprir em cada encontro, não poderia ficar a impressão que a dinâmica seria um empecilho para os trabalhos. Também foi uma iniciativa para proporcionar mudanças significativas sem invadir o espaço construído por elas já algum tempo.

Na medida em que foram terminando a dinâmica voltaram para os trabalhos afim de não causar nenhum transtorno em relação a tarefa, isto é, o bordado, o crochê e outros. A proposta era que os  comentários sobre a dinâmica fossem sendo desenvolvidos de forma natural, não conduzido. A coordenadora V. colocou  os dois quadros  num lugar de destaque dando uma atenção a produção final e a história desenhada pelos dois grupos.

A partir dos comentários o resultado foi favorável, proporcionando diálogo entre as participantes e risos, pois o momento foi oportuno, apesar dos receios, houve uma relação de troca, contatos, foi possível  uma relação grupal e crescimento.

 Neste mesmo dia foi relevante o seguinte fato; uma das pacientes da fundação estando na Oficina queria aprender fazer crochê, a estagiária explica o como fazer, já que  nesta situação de aprendizagem a paciente foi falando de sua  história de vida, de seu câncer, do seu tumor na perna. Comentava também quem era quem no grupo e foi apresentado um pouco da história de cada uma e da Oficina de Artesanato.

Na seqüência do estágio, pretende-se possibilitar uma ação em conjunto, isto é, verificar se existe uma relação grupal, qual a função deste agrupamento, sua finalidade e a história do mesmo. Ora, na observação de grupos onde as tarefas eram sempre individuais, sem haver ações necessariamente encadeadas para se atingir um produto, nos leva à categoria de não-grupo e à comprovação de que só é grupo quando ao se produzir algo se desenvolvem e se transformam as relações entre os membros do grupo, ou seja, o grupo se produz.

Segundo Silvia Lane (2001), um exemplo típico de não-grupo é aquele onde as pessoas se reuniam em uma instituição para apreender e fazer trabalhos manuais, cada um envolvido com o seu. Fisicamente as pessoas estão “agrupadas”, elas se relacionam conversando assuntos os mais diversificados, porém o fato de cada uma ter o seu trabalho faz com que as relações entre elas não se alterem, por mais tempo que permaneçam juntas.

Embora a Oficina de Artesanato seja um agrupamento de pessoas no momento, o ambiente, visto como produto humano se desenvolve a partir da necessidade de sobrevivência, que implica o trabalho e a conseqüente transformação da natureza; a satisfação destas necessidades gera outras necessidades, que vão tornando as relações de produção gradativamente mais complexas.

O desenvolvimento da sociedade humana se dá a partir do trabalho vivo, que produz bens e a conseqüente acumulação de bens (capital). Logo, as relações de produção geram a estrutura da sociedade, inclusive as determinações sócio-culturais, que fazem a mediação entre o homem e o ambiente.Uma vez que o que prevalece na oficina de artesanato neste tempo é essa relação com o capital para encaminhar os pacientes que buscam a entidade. Conforme escuta ativa com coordenadores, voluntários e visitantes.

Verificando a relação entre o não grupo e agrupamento de pessoas estabelece-se uma discussão: elas possuem uma tarefa, será um grupo operativo?

Destaca-se em relação aos dados acima, que os trabalhos desenvolvidos não possibilitam uma atenção aos pacientes de câncer de mama, um dos temas desenvolvidos na psico-oncologia. Já que os pacientes não chegam até a oficina de artesanato para uma acolhida, ou seja uma ajuda mais eficaz no sentido de escuta, pois ao escutar começamos a lidar com o aspecto verbal da interação.

Miranda descreve assim:

Observar é captar suas mensagens não-verbais, escutar refere-se a captar as mensagens verbais que ele transmite, retendo na memória os pontos mais importantes de seu relato.Assim, quando associamos as mensagens verbais e não verbais, aumentamos a chance de compreender realmente o que se passa com o ajudado.Ao escutarmos, comunicamos, mais uma vez, nosso desejo de ajuda-lo,  (MIRANDA,1999,pág.101)

 

A ligação mente-corpo já era citada por Freud (1923/1997) em sua segunda tópica, postulando que o id, como instância psíquica originada pela atividade corporal, ao entrar em contato com a esfera social, propicia o aparecimento do ego, que faz a mediação dos mundos interno e externo. Freud mostra, portanto, que o indivíduo é uma unidade psíquica, social e orgânica; diante disso, pode-se dizer que suas doenças físicas derivam não só de uma disfunção orgânica, como também do ambiente social e da sua vida psíquica, com seus afetos e relações objetais.

Na aproximação, nas conversas com a presidente sobre o espaço terapêutico, identificando os pontos importantes deste estágio, ela pede para atender a paciente  N.  esse momento teve sua relevância pelo interesse da mesma em atrair os pacientes para a oficina de artesanato.Pois esta paciente estava afastada já algum tempo e resiste em voltar para estar com as outras, ela possui uma habilidade especial o bisqui. Iniciei o atendimento individual com N. 36 anos,casada, tem uma filha, câncer de mama.

No entanto BANDEIRA (2008) relata que a família com um portador de câncer, particularmente de mama, requer maior atenção, em virtude do caráter crônico e da gravidade de que se reveste a doença, além do significado social e impacto psicossocial que representa para a mulher e seus familiares. O impacto da mastectomia afeta não apenas mulher, mas estende-se ao seu âmbito familiar, contexto social e grupo de amigos. Este impacto potencializa-se com a indicação dos tratamentos associados à cirurgia, principalmente à radioterapia e à quimioterapia.

Dessa forma, à mulheres com câncer de mama, após a  realização da mastectomia, fica uma pergunta: como fica o  relacionamento familiar diante de todo o processo da doença, evidenciando tanto as relações dos familiares entre si, como dos familiares com a mulher?  Como os membros da família se articulam para vivenciar o processo do cuidar? Quais os artifícios utilizados para  se adequar à nova situação?

No caso de N, o marido deseja um outro filho, a filha não gosta de ver  a mãe ajeitando a prótese, sente-se incomodada. Ela não se  relaciona livremente com a irmã que mora próximo a ela, em seu discurso diz que a irmã também se preocupa muito com ela.

No primeiro dia N.  compareceu na fundação ansiosa por não saber o para que a presidente havia chamado. Então  foi feito um breve relato sobre os objetivos do estágio, uma acolhida, uma escuta, a disposição de ajudar estando com ela neste tempo. A paciente tem necessidade de falar, falou bastante e algo que acentua é sobre sua obesidade, isto a preocupa muito, tem sintomas de depressão, ansiedade, melancolia  e tristeza profunda .

A etiologia da obesidade é um processo multifatorial que envolve aspectos ambientais e genéticos. Atualmente, a obesidade é um problema de saúde pública mundial, tanto os países desenvolvidos como os em desenvolvimento apresentam elevação de sua prevalência.

Em termos científicos, a obesidade acontece quando uma pessoa consome mais calorias do que queima. As causas para o desequilíbrio entre calorias ingeridas e queimadas podem variar de pessoa para pessoa. Fatores genéticos, ambientais e psicológicos, entre outros, podem causar a obesidade. Fatores psicológicos também podem influenciar os hábitos alimentares. Muitas pessoas comem como resposta a emoções negativas como tristeza, tédio ou raiva.

A maioria das pessoas acima do peso não tem mais problemas psicológicos do que as com o peso correto. Ainda assim, até 10% das pessoas com obesidade moderada, que tentam emagrecer sozinha ou através de programa de perda de peso comercial, têm desordem de compulsão alimentar. Essa desordem é ainda mais comum em pessoas com obesidade severa.

Durante os episódios de compulsão alimentar a pessoa ingere grandes quantidades de comida e sente que não consegue controlar o quanto está comendo. Aqueles com problemas de desordem de compulsão alimentar mais severo também têm maior probabilidade de ter sintomas de depressão e baixa auto-estima. Pessoas com problema de desordem de compulsão alimentar podem ter mais dificuldade para perder peso e não recuperá-lo.

No caso de N. muitas perdas  significativas aconteceram, seu pai morre no mesmo tempo que ela perde o seio, ela fala:

” enquanto eu estava num hospital, meu pai no outro”, a mãe que morreu há 5 anos, e também sua sogra. Ela se ampara na sua religião, diz que vai vencer e que vai dar testemunho assim que terminar a radioterapia. Neste momento em que pode falar sobre seus sentimentos, relembrar de acontecimentos marcantes de sua vida, contar sua história, falar de seu sonho, ter seu corpo como antes, demonstra sentimentos de esperança e vitória conforme expressa na fala e nos seus gestos.

No entanto existe sua preocupação com a radioterapia que se aproxima, a disposição da presidente em continuar ajudar N. por isso pediu que não fosse cortado o vínculo iniciado pela estagiária.

E toda abertura da presidente em fazer da oficina um espaço terapêutico e atrair os pacientes oncológicos para um momento de lazer, de ocupação e convivência. 

            

Considerações finais

 

Alguns autores falam que o câncer é apenas um detalhe na vida dos pacientes, neste momento, vem a tona todos os “podres” familiares,  ou seja, muitos problemas dos pacientes não são causados pela doença, mas ampliados por ela.

A psico-oncologia é voltada para que a pessoa faça um novo projeto pelo qual vale a pena viver.

O estágioI foi uma  experiência, foi relevante tendo em vista perceber a Oficina de Artesanato, aos poucos descobrindo a vivência individual e grupal. O atendimento da paciente N. possibilitou escuta empática, interação e relação cliente/ psicólogo.

É interessante perceber a expressão das pessoas através de seu corpo, do que com suas próprias palavras e com o olhar, seu  fazer, na convivência, falam muito da história de vida de cada um.

Finalizando o estágio, é possível notar a diferença com que cada pessoa vivencia a doença, até pelo fato de a doença estar em estágios completamente diferentes, alguns  já curados por estarem no estágio inicial, com saúde e dispostos a viver.

Portanto, o estágio foi de grande crescimento, por estar em contato com os sentimentos e as fragilidades  do ser humano diante de algo que o amedronta, que é  o câncer.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BANDEIRA, Márcia Fernandes; BARBIERI, Valéria. Personalidade e câncer de mama e do aparelho digestório. Universidade de São Paulo – Campus Ribeirão Preto.   Acesso em: 30 de abril de   2008

 

FREUD, S. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1923) 1997. acesso em: 10 de maio de 08

 

MIRANDA, Clara Feldman de; MIRANDA, Márcio Lúcio de. Construindo a relação de ajuda. 4. ed. Belo Horizonte: Crescer, 1988.

 

LANE, Sílvia T.M. O processo grupal. In: LANE, Silvia T.M.; CODO, Wanderley (orgs.). Psicologia Social: O homem em movimento. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 2001.  . Acesso em : 12 de maio de 08

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta