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Publicado por - 12/12/2013

O “psíquico resulta do psíquico, de maneira que é para nós compreensível”.

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A Fenomenologia psiquiátrica

 Karl Jaspers

A Fenomenologia psiquiátrica deriva fundamentalmente da corrente filosófica que leva o mesmo nome. Husserl definiu o princípio da fenomenologia como uma descrição de fenômenos saturada de rigor. Com esse mesmo propósito, Jaspers transporta para a psiquiatria o movimento fenomenológico, colocando em relevo sobretudo a necessidade de recorrer, nas histórias clínicas psiquiátricas, a uma transcrição literal das expressões dos enfermos e uma descrição fiel de seu comportamento; deixa-se à parte, portanto, toda menção da índole dos sintomas e as interpretações dos mesmos, e se obtém um registro de “alta fidelidade” do modo como o enfermo experimenta os sintomas de seu mundo interior”.

“A Fenomenologia – diz Jaspers “é para nós, aqui, um procedimento empírico. A captação ou apreensão das vivências do enfermo constitui a pedra fundamental da psicopatologia fenomenológica jasperiana situando-se o psiquiatra diante delas não como mero observador, senão tratando de experimentá-las, representando-as para si mesmo e fazendo o que Husserl chamou de “redução fenomenológica” mediante a qual exclui ou “põe entre parênteses” tudo o que no conteúdo da consciência tinha relação com o sujeito psicológico e com a existência individual.

Karl Jaspers introduz o rigor metodológico na psiquiatria e proporciona à psicopatologia a metodologia sistemática, adequando-a para o seu desenvolvimento como ciência.

O “objeto do psicopatologia é a atividade psíquica real e consciente, é o estudo dos estados da alma, tal como os pacientes os vivenciam. Queremos saber o que os homens vivem e sentem e como o fazem; queremos conhecer a extensão das realidades da alma. Queremos examinar não só a vida dos homens, mas as circunstâncias e as causas que a condicionam, aquilo a que ela se vincula, todos os aspectos que apresenta. Mas não se trata de toda atividade psíquica: só a patológica constitui nosso objeto de estudo”.

Ao situar-se na linha do pensamento fenomenológico, Jaspers não apresentava uma nova concepção do psiquismo ou da patologia, mas uma reflexão sobre a abordagem dos fenômenos psíquicos.

Jaspers apresentou uma reflexão metodológica sobre o método, sem um a priori, partindo dos fenômenos. O psicopatologista estuda fenômenos psíquicos reais com suas condições, suas causas e suas conseqüência. Deve desprender-se dos a priori e dos preconceitos: preconceito somático, segundo o qual tudo que é psíquico não é objetivo; preconceitos filosóficos, que explicariam tudo sem recorrer à experiência; preconceito psicológico, que quereria compreender tudo, sob o pretexto de que a compreensão por interpenetração seria importante, ir mais além do que poderia ser compreendido psicologicamente. 

No enfoque psicopatológico seria necessário considerar a relação do médico e do paciente e procurar compreender as relações do indivíduo patológico com o mundo, mais do que uma etiologia.

 

Compreender e Explicar

 

A) Compreensão: Psicopatologia compreensiva ou subjetiva

 

Nas ciências naturais, procuramos apreender só um tipo de conexões: as conexões causais. Mediante observações, experiências, reunião de muitos casos, buscamos encontrar regras do evento. Em grau mais alto encontramos leis e atingimos, em várias áreas da física e da química, o ideal que consiste em poder exprimir matematicamente essas leis causais em equações causais.

Enquanto nas ciências naturais só podem ser encontradas relações causais – diz Jaspers – em psicologia o conhecer encontra sua satisfação na captação de uma espécie muito distinta de relações. Para evitar ambigüidades empregamos a expressão “Compreender” (verstehen) sempre para a visão do psíquico obtida desde dentro. Ao fato de conhecer relações causais objetivas, que só é visto desde fora, não chamamos nunca compreender, senão sempre “explicar”.

Compreender algo é conexioná-lo com a vida psíquica do sujeito; nesse sentido a compreensão desinteressa-se do corporal e permanece no psíquico, permitindo distinguir o psíquico compreensível do incompreensível.

Sabemos que a Fenomenologia jasperiana tem seu ponto chave exatamente na compreensibilidade ou incompreensibilidade das vivências mórbidas captadas nas autodescrições dos pacientes.

A Compreensão consiste num esforço de penetração e de intuição do fenômeno mórbido com seu significado, tal como o considera o enfermo. É a visão do psíquico pelo psíquico; deixar de si e visitar  o outro; o que não quer dizer que tenha vivido o que o paciente experimenta, significa que ao visitar posso imaginar e isto basta para compreender. O fundamental é que, a partir da escuta e da observação (olhar), naquilo que é relatado, seja utilizado o método da compreensão e estabelecidas as relações de sentido das vivências.

O “psíquico resulta do psíquico, de maneira que é para nós compreensível”. A produção de um evento psíquico por outro evento psíquico pode, segundo Jaspers, ser compreendida geneticamente. Quem é atacado zanga-se e pratica atos defensivos; quem é enganado torna-se desconfiado. É claro o parâmetro utilizado por esse método, o psíquico motivado é considerado sadio e define os desenvolvimentos e as reações, apontando para uma psicogênese; ao passo que o psíquico imotivado constitui o mórbido, ou seja o somaticamente condicionado.

Se penetrarmos na situação psíquica, compreenderemos geneticamente de que modo um evento psíquico é produzido por outro. Daí compreendermos as reações vivenciais, o desenvolvimento das paixões, a formação do erro; o conteúdo dos sonhos, do delírio; mais ainda: a maneira por que o doente se compreende a si mesmo e por que a forma

que ele se compreende a si mesmo vem a tornar-se fator de desenvolvimento psíquico ulterior.

Jaspers distingue a compreensão genética ou dinâmica da estática ou fenomenológica.

a) Compreensão genética ou dinâmica  (Origem) Historicidade.

Busca a captação de motivos, consistindo em estabelecer uma analogia entre a representação da vivência do outro e a experiência do vivenciar próprio, tendo como pressuposto a empatia. Ou seja, compreensão das relações de sentido com toda a historicidade do sujeito; qual o motivo disso? Essa metodologia teria como objetos os motivos e a continuidade de sentido-vital, e se basearia mais na perícia e na habilidade do entrevistador.

Motivo é diferente de causa;

Causa – estabeleço a relação causa/efeito.

Motivo – o que motivou não é necessariamente o que causou.

Isto partindo do princípio de que o psiquismo surge do psíquico e o que surge do psíquico tem um sentido.

 

b) Compreensão Estática ou fenomenológica ou racional

Busca a apreensão dos modos de vivenciar, e de certos elementos constitutivos da vivência; teria como objeto a forma da vivência, e se basearia mais na ciência. Compreensão Estática ou Fenomenológica – intuir as qualidades de vivência num determinado momento a partir da vivência do paciente.

A compreensão consiste em descobrir os nexos de sentido existentes na vida psíquica. Na prática, a compreensão fundamental do enfermo mental se insere em torno de três atividades:

1 – A indagação acerca de se a aparição do mundo do enfermo mental, tomada em sua totalidade ou em parte, tem suposto ou não a interrupção ou o desgarramento da continuidade de sentido que existia no desenvolvimento biográfico do mesmo sujeito. O desgarramento biográfico também pode formular-se como o processo de transformação do sujeito em um ser intrinsecamente novo. Ele ocorre nas psicoses, especialmente nas esquizofrenias.

2 –  A comprovação de se no mundo do enfermo e em suas estruturas psicopatológicas existe uma unidade de sentido ou não. Com este dado é possível fazer valiosíssimas elaborações psicopatológicas na esquizofrenia. A vivência esquizofrênica consiste em vivenciar a falta de unidade de sentido do ser que  há ante nós. O psiquiatra experimentar então uma forte impressão de estranheza e até de perplexidade. A esquizofrenia é uma estrutura esquizofrênica desprovida de unidade de sentido.

3 – Motivo – A primeira indagação se refere a conexão de sentido biográfico ou global e a segunda atende ao conjunto do ser-enfermo e suas estruturas psicopatológicas mais relevantes, a compreensão quer aqui buscar conexões de sentido particulares (motivos) entre o psíquico e o atual. O problema mais comum aqui consiste em desvelar se determinado fenômeno, por exemplo, um delírio de perseguição está ligado ou não por um nexo de sentido com outros fenômenos psíquicos coexistentes. Se não se faz este nexo, se diz que este delírio é imotivado ou psicologicamente incompreensível. Ou ao contrário se este delírio obedece a um motivo psicológico que poderia consistir em um sentimento de desconfiança intenso produzido por um desengano sofrido em algum momento.

Portanto, encontramos três classes de fenômenos psicologicamente incompreensíveis:

1) Continuidade de sentido Histórico-vital – Indagação com uma perspectiva mais ampla que trata as possíveis relações de sentido entre algo vivido e o desenvolvimento histórico-vital do sujeito, a aparição do fenômeno psicopatológico, tomado em sua totalidade ou em parte, supõe ou não a interrupção ou a quebra da continuidade de sentido histórico, trata-se do aspecto mais relevante para estabelecer se uma vivência é ou não incompreensível;

2) Unidade de sentido – os que carecem de unidade de sentido. Trata-se de comprovar se no mundo do paciente e em suas estruturas psicopatológicas existe uma unidade de sentido. Esse tipo teria mais valor na esquizofrenia, onde temos quebra da unidade de sentido das vivências;

3) Motivos – Aqui a indagação se limitará a considerar a conexão de sentido entre aquele fenômeno vivido e a vida psíquica atual restante, estabelecendo se o fenômeno está ligado ou não por um nexo de sentido com outros fenômenos psíquicos coexistentes. Portanto, dispomos de três referências de compreensibilidade psicológica: a continuidade de sentido, a unidade de sentido e a motivação.

O critério mais seguro para delimitar o psicologicamente incompreensível e o compreensível  se atém a escutar se a continuidade de sentido biográfica está preservada ou não.

Mas nem tudo que ocorre é compreensível; há um limite na compreensão. Esse limite cria um anseio: a descoberta, e, é nesse momento que temos o impulso a explicar. O homem é propenso a explicar tudo aquilo que não lhe é facultado compreender.

 

B) Explicação: Psicopatologia Explicativa ou objetiva

 

Para Jaspers não existe “nenhum processo real, seja de natureza psíquica ou física, que não seja acessível em princípio à explicação causal. O conhecer causal jamais encontra seus limites.

O método explicativo, ao contrário do compreensivo, não permanece no psíquico nem se distancia do corporal, mas é a via apropriada para descobrir correspondências empíricas entre os fenômenos psíquicos e os corporais. Dentro deste perfil de investigação global sobre possíveis correlações psicofísicas empíricas – e não especulativas -, deve-se se destacar como objeto essencial do método explicativo o conhecimento da identidade do processo mórbido somático determinante da alteração psíquica.

Portanto, a explicação baseia-se nos dados fornecidos pela exploração corporal do paciente, sendo os dados anômalos a matéria prima desse método psiquiátrico. Sua particularidade consiste em estabelecer vínculos de causalidade mórbida entre o somático e o psíquico; vínculos que tem sua origem na esfera somática e efeitos na esfera psíquica. O “que fazer” explicativo essencial é, portanto, uma busca de vínculos de causalidade somatopsíquica. Esta busca se inicia com um exame ponderado dos distintos aspectos e qualidades dos transtornos somáticos e psíquicos observados no curso das explorações e a relação cronológica entre ambos.

Para admitir que uma alteração psíquica está determinada por um certo transtorno somático e que este, portanto, tem a categoria de processo mórbido fundamental, exige-se que ele cumpra três condições:

1) Condição psicopatológica: A alteração psíquica deve corresponder aos quadros psicopatológicos próprios das psicoses somatógenas ou psicoses de base corporal conhecida.

2) Condição Somatopatológica: O processo somático deve ser o reconhecido poder de produzir alterações psíquicas

3) Condição cronológica: O processo mórbido deve ter se iniciado antes da alteração psíquica.

Esse método deve ser aplicado com rigor respeitando essa três condições, pois a concomitância de um processo somático mórbido e um transtorno psíquico não autoriza, por si, a afirmar que entre ambos exista um nexo causal.

Os conceitos de compreender e explicar, que Jaspers introduziu na psicopatologia geral vieram iluminar a  confusa situação da psicopatologia no início do século, mas foi principalmente a aplicação do método, como forma de apreensão do psíquico e de suas alterações, que constituiu sua grande contribuição.

Podemos esquematizar da seguinte forma:

Compreensão:

– “causalidade de dentro”

– representação intuitiva

– psicologia

– penetração na situação psíquica: compreensão do modo pelo qual um evento psíquico produz outro

 

Explicação

– Causalidade de fora

– Apreensão objetiva

– Ciências naturais

–          Vinculação objetiva de vários fatos a regularidade, com base em experiências reiteradas.

Decorrente dessas noções foram estabelecidas outros grandes conceitos os de processo e desenvolvimento, pedras angulares da psicopatologia geral e da psiquiatria. Os conceitos de “compreender” e “explicar” estão estreitamente correlacionados com as concepções jasperianas de, “processo”,  “reação” e “desenvolvimento”

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