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Publicado por - 24/01/2014

A Arte de Ouvir

Publicado por Maria de Lourdes Batista

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Segue uma reflexão sobre o sentido da palavra “ajudar”, abordando as diferentes relações de ajuda existentes, e de forma especial a relação terapêutica.

“Não colha agora o botão

que  somente amanhã, promete desabrochar.

Dá seiva à roseira

Que, por si só,

A rosa se abrirá num sorriso

A te oferecer

Suas pétalas…

Seu perfume…

Dócil e integralmente.”

Cláudia Botelho

Começo a reflexão trazendo uma pequena história.  Alguns autores dizem que histórias são como espelhos, pois sempre revelam algo sobre a pessoa.

“Há  muitos séculos, Avicena, o famoso médico árabe da Idade Média, foi importunado pelos amigos de um príncipe doente, e queriam que fosse até lá e curasse o doente. Diziam que o príncipe estava muito enfermo, que muitos médicos haviam sido consultados, mas todos fracassaram. O médico Avicena, era a última esperança.

Quando o famoso médico ouviu isso, mostrou-se interessado e perguntou pelos sintomas da doença do príncipe. Os amigos responderam que o príncipe teimava em acreditar que havia se transformado em uma vaca, e exigia ser abatido. Avicena concordou em deslocar-se até onde residia o desafortunado príncipe.

O príncipe era muito amado pelos seus  súditos, tudo que era possível  já havia sido experimentado antes do apelo a Avicena.  Mas, o príncipe mesmo assim insistia em afirmar que era uma vaca e  portando, deveria ser abatido.

Avicena chegou. Primeiro, tentou saber tanto quanto possível sobre o príncipe, escutando a todos cuidadosamente – e naquele pais havia muito que queriam falar. Depois, tentou compreender o príncipe, escutando-o.

Como ele não dizia nada mais que “muuu”, isso adiantou muito pouco.

Então, tão empaticamente quanto podia, tentou compreender com o príncipe com o príncipe seu estranho mundo interior.

Finalmente, disse ao príncipe:

“Sim, agora compreendo que você é uma vaca, e deve ser abatido. Mas, príncipe, você está tão magro que antes seria preciso engordar um pouco.”

Ouvindo isso, o príncipe começou a comer – coisa que não fazia ultimamente – a apreciar suas refeições. Então, lentamente… o final é obvio.

Avicena foi capaz de ajudar o príncipe.

Fica a pergunta:

Como Avicena ajudou o príncipe?

Como chegou a formular uma pequena frase que teve impacto suficiente para “toca” o homem?

Na história não conta o caminho que Avicena fez, pois cada um faz seu próprio caminho, mas há pistas para refletir a respeito das habilidades necessárias àqueles que pretendem ajudar alguém.

Com certeza, todas as pessoas ajudaram o príncipe, sendo simpáticas e amorosas, mas ele precisava também, de uma relação de ajuda de outra natureza: uma relação terapêutica.

Como existem diferentes tipos de relação de ajuda, também há diversas formas de relação terapêutica.

Terapêutica vem do grego thérapéia, que significa servir, cuidar, mediar a relação entres os homens.

Na relação terapêutica, a palavra ajuda tem seu significado ampliado. Benjamin (1983), define ajuda como um ato de capacitação. No sentido de facilitar, promover, propiciar a experiência e o crescimento do outro.

Avicena assim o fez. Criou condições para que o príncipe pudesse se alimentar, o que foi fundamental para sua sobrevivência, pois esta era sua maior necessidade no momento.

Avicena soube mergulhar no mundo do príncipe, sem confundir-se ou identificar-se com ele, pois senão seria outra vaca pedindo para ser abatida.

O medico árabe não foi apenas simpático como príncipe. Soube ser empático, ou seja, penetrou no mundo do outros, tentando ver com seus olhos, mas mantendo sua própria identidade. Ele adentrou o universo da outra pessoas,

“como se “ fosse o outro.

A primeira atitude de Avicena foi ouvir.

 

Referências

BENJAMIN,A., A Entrevista de Ajuda, São Paulo,Martins Fontes, 1983.

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