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Publicado por - 4/09/2017

Resistência 

 

Quem está familiarizado com os jargões psicológicos já deve ter ouvido muito a primeira palavrinha do título: resistência. Para aqueles que ainda não a conhecem, darei uma breve explicação, pois me parece que o termo já se explica por si só.

A resistência seria o conjunto de fatores que dificultam o andamento do processo terapêutico. Esses fatores, em sua maioria, são inconscientes. Trocar palavras, esquecer o horário, perder as chaves do carro, e assim por diante.

Mas uma boa dose deles são determinados conscientemente: marcar outros compromissos na hora da terapia, encher o tempo da sessão com conversa fiada, restringir os assuntos que podem ser falados, etc..

Para que um trabalho analítico caminhe bem, é FUNDAMENTAL que essas resistências sejam trabalhadas. Mas existe um tempo certo para isso.

Mas por que as pessoas resistem tanto? Acredito que por uma certa atitude de rigidez egóica. Nós queremos que todos aqueles sintomas indesejáveis sejam arrancados de nós durante uma análise, mas não sei quantos de nós estão dispostos a mudar por isso.

É aquela velha história de que para que algo novo surja, o antigo deve perecer. Não somos muito chegados nessa história de “perecer”. Afinal de contas, parece que o problema é sempre os outros, nunca nós mesmos.

Mas aí o terapeuta é colocado em um papel muito complicado. É como ir ao médico e dizer: “Dr., tenho colesterol alto. Mas por favor, não vamos fazer exame de sangue, pois não gosto de agulha.

Aí o médico te passa um medicamento que você esquece de tomar, e  também fala para você fazer atividade física. Você até se matricula na academia, mas nunca vai, pois sempre tem coisas mais importantes para fazer com seu tempo.

E seu colesterol melhora? Não, não melhora… e você pensa que talvez seja melhor marcar outro médico.

Isso é um tanto frustrante, tanto para o terapeuta quanto para o cliente. Mas trabalhar as resistências dentro da terapia não é tarefa fácil. Se você for condescendente em demasia com a atitude de “não querer ver, não querer saber, não querer mudar” de seu cliente, pode ser que ele nunca se dê conta de como sabota seu processo. Se você for muito duro, pode ser que você o quebre, e ele nunca mais volte.

Se as resistências estão lá, é porque são necessárias e protegem algo que pode desmontar. Ao terapeuta, cabe perceber (dando leves cutucadinhas) qual é o momento propício para tocar no assunto.

Gosto muito dessa frase da Monja Coen, sobre como isso se dá na relação mestre-discípulo no zen budismo (e que acho que dê para extrapolar para a relação terapeuta-paciente:

‎”No zen, costumamos dizer que o relacionamento do mestre com o discípulo deve ser como o da galinha com o pintinho. A galinha fica lá, chocando seu ovo e, de vez em quando, dá uma bicada na casca para ver se já pode abrir. Enquanto o pintinho não responde com uma batidinha, a galinha não quebra a casca do ovo. O mestre age da mesma forma. Ele nunca abre a casca do discípulo antes da hora, pois é preciso que haja uma resposta de dentro. É muito importante respeitar o tempo de cada um, sem querer forçar ou exigir nada de que o outro ainda não dê conta.” 

A resistência é como a casca do ovo, que protege o pintinho, até que ele possa sair dali para se relacionar por inteiro com tudo o que está à sua volta. Então vamos quebrando, mas vamos quebrando devagarzinho, para não quebrar a estrutura da casa do pintinho!

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